domingo, 2 de setembro de 2018

A cidade contemporânea e o patrimônio



     A cidade começa a se consolidar com maior intensidade na revolução industrial e que acabou trazendo um grande número de pessoas que antes habitavam os campos para a área urbana. No início não se tinha um claro modo de organização e por vezes as cidades eram insalubres e degradadas até teóricos perceberem a necessidade de uma mudança e o surgimento de propostas urbanísticas para as áreas urbanas. O conceito que surge com grande força nessa nova fase de organização das cidades é o urbanismo moderno e a arquitetura moderna, com o ideal de transformar não só as cidades e a arquitetura mas também o modo de vida das pessoas.



     A chegada do modernismo vem romper a continuidade histórica. O planejamento através das distinções de habitar, trabalhar, circular e recrear rompe muitas vezes com a memória do lugar e o individualismo impera dentro deste conceito. Além disso a segregação dos espaços gera graves conflitos de todas as ordens como por exemplo a criação de vácuos urbanos sem vida e com problemas com violência e degradação. Isso demostra como nem sempre a teoria que é tão boa no papel pode ser aplicada com eficácia na cidade, muito em decorrência do complexo modo que as pessoas absorvem certas informações. Um claro exemplo da nossa realidade na cidade de Caxias do Sul é a ocupação da UCS como um grande parque sendo que trata-se de uma área privada porém aberta ao público e por vezes outras praças e áreas públicas acabam não sendo ocupadas.

     Contudo, em meados da década de 60, começa-se a reestruturar o pensamento da sociedade em relação ao planejamento urbano, surgem grandes críticas ao urbanismo moderno como o livro de Jane Jacobs e que ainda é uma grande análise do nosso modo de organizar a cidade, e há uma profunda reflexão de como queremos as cidades. Os espaços que anteriormente eram espaços sem vida, agora buscam um planejamento em escala humana, preservando e revitalizando locais de valor histórico. Áreas que encontram-se sem uso dentro da cidade tornam-se oportunidade de renovação e revitalização em zonas que dentro do núcleo urbano estavam abandonadas e que agora podem tornar-se vivas novamente. No Brasil, isso também ocorre no final dos anos 70, num momento de grande crescimento da economia do país criando a necessidade de novos espaços, assim os projetos dirigem-se na intervenção de edificações já existentes dando um novo uso a mesma.


     Entretanto junto com essas novas intervenções urbanísticas um fator por vezes aparece criando conflitos. Ele surge pelo desenvolvimento da sociedade capitalista e pelo modo que ela se utiliza de ocupação do solo. A negligência de profissionais da área urbanística acaba fazendo com que a especulação imobiliária dite alguns tratamentos de uso do solo e assim influenciando no planejamento da cidade e interferindo nesses ensaios de requalificação de áreas urbanas. Há descentralização das cidades e com isso algumas zonas se prevalecem com determinados equipamentos públicos em detrimento de outras. Por exemplo, a classe mais abastada da sociedade acaba ocupando nova parte do território da cidade e em consequência grande parte dos equipamentos de uso público e privado como shoppings, restaurantes, e outros acabam por acompanhar essa mudança no território tornando a outra abandonada e com sérios problemas de gestão dos recursos. 

     Assim, retomando a ideia da requalificação urbana, é necessário um aproveitamento de edificações já existentes, ciando potenciais de desenvolvimento dentro da cidade. Esse processo de qualificação não se limita a apenas edificações mas também a áreas inteiras de uma cidade, que acabaram abandonadas e com grandes problemas, criando assim novas zonas e centros, humanizando áreas esquecidas da cidade e que possuem grande potencial. Trazer a luz da sociedade todo esse patrimônio e historia que se observa pelas nossas cidades é o motor fundamental da nossa cultura e desenvolvimento humano.









quinta-feira, 12 de julho de 2018

Os caminhos de Pedra

fonte:http://www.caminhosdepedra.org.br/?page_id=405


Os caminhos de pedra nascem no barracão, atual bairro da cidade de Bento Gonçalves e local de instalação dos primeiros imigrantes que chegaram a região, antes denominada Colonia Dona Isabel. A partir desse ponto a única ligação com a colônia de Caxias se dava por meio da linha palmeiro, em decorrência disso, existiam inúmeros equipamentos ao longo dessa estrada, moinhos, ferrarias, serrarias, entre outros. Contudo com o estabelecimento de outras rodovias, essas estradas acabaram ficando no abandono.  


fonte:acervo pessoal


No início dos anos 90 surge um novo olhar para essa região. O projeto foi pensado pelo Eng. Tarcísio Vasco Michelon e pelo Arq. Júlio Posenato onde o mesmo teria como objetivo a preservação e valorização da cultura da imigração na cidade Bento Gonçalves. Após a investigação do interior da cidade percebeu-se que, principalmente a linha Palmeiro, possuía grande quantidade de edificações históricas e que se não fosse feito algo, todo aquele acervo poderia ser perdido. A proposta também contemplou mais tarde o resgate de todo o patrimônio cultural, não só o arquitetônico, envolvendo língua, folclore, arte, entre outros. Até ser declarado patrimônio histórico e cultural do RS em 2009.  


fonte:http://www.caminhosdepedra.org.br/?page_id=406


Esse é um projeto que além do resgate da história e da memória na cidade, também cria uma nova centralidade. Hoje os caminhos de pedra recebem cerca de 100.000 pessoas por ano em média, segundo informações disponibilizadas pela associação local. Nesse caso, fica claro aquilo que foi abordado dentro do texto na prática. A partir de um projeto idealizado por pessoas com uma sensibilidade para com a história e o patrimônio, aliado a um apoio político, tem-se um novo vetor que além de gerar renda a economia local traz um resgate da cultura e a valorização da mesma junto a todo público que ali passa.  


http://www.caminhosdepedra.org.br/?page_id=405




















segunda-feira, 9 de julho de 2018

Falimos novamente


     Deixamos de fazer direito aquilo que sempre soubemos fazer. Onde está o maior, a camisa pesada, aquele que sempre foi temido, odiado e venerado? Já não sabemos mais.

     Deixando um pouco de lado a arquitetura vou dar minha opinião sobre a "seleção" brasileira e seu futebol pífio e só o farei para daqui 4 anos repostar esse texto e confirmar minhas expectativas para a próxima edição da copa.
     Futebol sempre foi um negócio, isso não é nenhuma novidade. Porém o que nós vemos hoje em dia é uma verdadeira destruição cultural do futebol e dos clubes. Os campeonatos citadinos e regionais sofrem cada ano mais por essa máquina fantasiosa que transforma clubes em balcão de negócios de investidores, televisão, sonegadores e todo tipo de vagabundo que se alimenta da alegria das pessoas.



     Tentam copiar a todo custo o modelo de gestão europeu com arenas multiuso moderníssimas, verdadeiros centros de entretenimento com lojas, cinemas, restaurantes e pouco futebol. Esquecem infelizmente daquele que mais pode dar vida ao empreendimento ou seja o torcedor. O verdadeiro combustível de um clube, aquele que pegava sua almofadinha e seu radinho e seguia à cancha. Tomava sua cerveja, comia seu pastel, gritava, xingava e voltava para casa depois de mais um jogo. Hoje não consegue mais nem fazer a metade disso sem deixar um rim na saída do estádio.

     


Mas isso é o futebol contemporâneo, o futebol de vitrine, o modelo a ser seguido, pois no primeiro mundo é assim, pois bem, está aí o resultado preliminar. Clubes quebrados e que devem até as calças, estádio que parecem quadras de tênis, jogos pífios, pipoca a 15 conto! entre outros... Porém o mais grave ainda não é isso e sim a destruição da nossa matéria prima, ou seja, nossos craques.




     Onde estão os pequenos gênios da bola, os dribladores, a gurizada de faz fila no jogo, aquele guri que brinca com o adversário? 

     Já estão todos negociados, com contratos e empresários. Se não bastasse já o enfiam dentro de um padrão de jogo e comportamento em campo. Seguem o modelo europeu e moldam nossos craques para que se tornem apenas peças de um sistema. Criam um boneco e compram ele com seus super salários e depois que não servem mais o jogam numa vala. Se não bastasse toda essa corja de vagabundos, ainda temos a imprensa querendo nos enfiar goela a baixo falsos craques, jogadores que podem algum dia ter sido o diferencial mas que infelizmente entraram no zona de conforto. 

Ok e o que a seleção tem a ver com isso?

     Ela é a ponta do iceberg, o resultado final da porcaria de futebol que estamos produzindo. O espetáculo do povo agora é o motor da corrupção no esporte. Como montaremos um verdadeiro time se estragamos nossa matéria prima? Como ser campeão se o treinador tem olhar direcionado e interesses extra campo? Como ter uma unidade se os jogadores estão mais preocupados com as propagandas de TV? Eu não sei, mas tenho certeza que não é do jeito que o futebol se apresenta hoje.

Daqui 4 anos novamente os coronéis da bola destruirão nossa esperança, pois o que importa é o marketing e a ilusão. Tite e suas convicções furadas não resolverão o problema. Estamos fadados a mais um fracasso.


Não ao futebol moderno!









segunda-feira, 16 de abril de 2018

Bento Gonçalves - Antes e Depois

Hoje não vai ter texto, vão ser imagens para refletirmos o que era a nossa cidade e o que ela é 
Vou começar a postar uma série de fotos para que cada um tire as suas conclusões.

As imagens antigas foram postadas por Dolmires Lunardi em seu Facebook.


        Antigo posto de combustível da esquina das ruas Barão do Rio Branco com a Cândido Costa



Vista da rua Marechal Deodoro, antes da construção a Via del Vino


Subida da rua Goes Monteiro em direção ao bairro Planalto


Vista da rua Barão do Rio Branco com a Escola Bento ao fundo, projeto de Niemeyer



Continua...

terça-feira, 3 de abril de 2018

O caminho do Restauro (parte 2)

        Continuando o tema da última postagem, o campo da conservação e do restauro arquitetônico é algo muito subjetivo e complexo, o modo de agirmos e intervirmos no patrimônio edificado, requer não apenas habilidade para o mesmo, mas sim uma interlocução multi-disciplinar, que dará o suporte necessário para que o arquiteto tenha o maior conhecimento possível para intervir no monumento. Contudo o que mais vemos ao caminharmos pelas nossas cidades, e eu falo pela minha, são intervenções agressivas e descaracterizantes que de nada acrescentam ao objeto e muito menos a memória cultural vinculado ao contexto da edificação.

Fonte: Google




      Algo muito comum aqui é a preservação de fachada, como se ela fosse a arquitetura propriamente dita. Arquitetura trata de espaço construído, de materialidade, de técnica e não simplesmente de superficialidades. Ao optarmos pela destruição do objeto e conservação apenas da sua fachada principal colocamos a baixo todo discurso que embasa o nosso dever perante um monumento à ser preservado.

Fonte: Google



        Do mesmo modo que a cidade foi se transformando com o passar dos anos, as edificações e suas características também assim o fizeram. Os traços da arquitetura da época podem ser percebidos assim como características típicas locais. Contudo o que vemos agora é a total descaracterização aos prédios que contam uma parte da nossa história. 

Fonte: Google


        As vezes nem resta mais o original, a imagem acima mostra um conjunto de casas junto a estação férrea da cidade de Bento Gonçalves. A primeira, como percebe-se, foi demolida e no lugar foi construído essa edificação totalmente desconexa e inadequada, com a intenção, a princípio, de remediar o erro cometido.

Fonte: Google


Por fim eu deixo essa imagem, preservando e valorizando, não sei o que, boa parte da estrutura já foi abaixo, a conservação do original autêntico já se perdeu, a identidade visual também e bem provável que a espacial vá mesmo para o espaço.


Como já dizia Neil Young, "...It's better to burn out, Than to fade away..." 













segunda-feira, 2 de abril de 2018

O Caminho do Restauro

Casa Comiotto - Caminhos de Pedra - Bento Gonçalves


Trabalhar com preservação e restauro nos remete diretamente a um tema principalmente ligado a cultura de um povo e sua história, expressa por meio da arte, arquitetura entre outros. Esse tema pode ser remetido até os tempos antigos, a partir do século XV já são evidenciadas algumas intervenções nesse cunho cultural. Porém é no final do século XVIII que esse processo de recuperação começa a se sistematizar e de forma gradativa começa a se consolidar e passar por uma evolução da prática do restauro. O processo de evolução, ou também, de autoconhecimento da prática, traz consigo várias experimentações e modos de ver o restauro e a preservação. Também ligado muito ao campo da filosofia o tema acaba tornando-se abrangente no campo da discussão do porquê intervir e como fazê-lo. Dessa forma várias vertentes começam a aparecer e apresentam seu modo de restauro e sua visão do mesmo.

continua...

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Escritório X


        A ideia inicial, ao montarmos o escritório, era a de reunir um grupo de arquitetos para participar de concursos de arquitetura, onde exige-se uma certa quantidade de pessoas em decorrência, por vezes, da quantidade de trabalho e pelos prazos curtos. Porém porque não trabalhar nesses intervalos entre os concursos, logo, começamos a divulgar nossos projetos e também ideias para mostrar a nossa marca ao público em geral.

          
           Inspirar para projetar é o foco que procuramos. Divulgamos nos meios digitais projetos e conceitos que possam chamar a atenção das pessoas, tanto no uso de técnicas diferentes quanto nos locais que escolhemos para a inserção do objeto de estudo. 


               Queremos trazer de volta a arquitetura para o debate público, o Brasil que por anos foi referência mundial nessa arte, em algum momento acabou saindo do caminho e ainda não conseguiu voltar. Somente a divulgação, a discussão, a troca de ideias e a vontade de mudar é que podem elevar novamente nossa cultura arquitetônica ao nível dos mestres modernistas de outros tempos.


                   Nós do Escritório X procuramos fazer a nossa parte, divulgamos aquilo que consideramos relevante dentro da arquitetura, tanto nesse blog como pelo site, facebook, instagram, etc e projetamos não o seu desejo mas sim a arquitetura do que você deseja. Estamos sempre abertos a conversas, sugestões, divulgações e obviamente a novos projetos. 


Obrigado a todos aqueles que nos ajudam com a divulgação, aqueles que participam das discussões, aqueles que nos criticam, aqueles que lutam por cidades melhores e aqueles que nos procuram e confiam no nosso trabalho. "Somos poucos mas somos loucos"